Sei que lá estás, ao forte da Figueira:
a serra em perspectiva não te trava
e há encontros imprevistos
que te impelem.
Passo ágil, tão discreta confiança
no que é a vida e o vento,
e em quem os sopra.
Na mente
mapas vários disponíveis,
guardados para raros dias de pausa
(se as pernas querem paz,
haja viagem!).
E sei o suave orgulho, a alegria
de me pregares partidas porque rio,
o facto de viveres a céu aberto
(se este poema é para ti segue
ao ar livre…

*
Inês Pupo
(ao meu tão grande amigo António Alves)

Partilhas comigo esta rampa
de relva e removes os restos
de tarde que entanto escasseia
(ocaso que acaso se acende?)…

O tempo suspenso da sesta
tão leve e tão feroz na balança,
se te ouve balir a pureza,
desiste. Adormece-me ao lado.

*

Inês Pupo

20140414-012640.jpg

Foco
ao longe um alvo
fraco lanço
setas invisíveis garras
antecipatórias
e o céu deus
do céu é
meu
*
Inês Pupo

Percorro os muros lentos das pessoas
e as pedras da memória
e os andaimes

Se me encontro notícia nem hesito
e aos poucos atravesso
o vil betão

Sou ferro sou herói de uma epopeia
mas cá dentro uma nuvem
dilacera

*

Inês Pupo

Das palavras
sei o nome
as letras todas
e percorro-lhes
a bem ou a mal
o inverno
imagino-as
em fila
obediente
aproveito-lhes
o sumo até
ao osso

Mas se um dia
elas vierem
pela manhã
e
me deixarem
por vingança
a porta aberta
não serei eu
que lhes indico
direcções
mas antes elas
que para sempre
me imobilizam

*

Inês Pupo

Andei por montes e vales
à procura do segredo
que um druida me confiou.

Ainda era outono na serra
e o ar fazia-se ouvir
nas agulhas dos pinheiros,
nos chocalhos dos rebanhos,
no uivar de um lobo velho
separado da alcateia…

Era um segredo do mundo
que se perdia na história
e que em tudo me fazia
regressar de novo a casa,
a esse lugar interior
que, apesar de irrepetível,
volta a ser todos os anos.

Eu nunca soube o caminho,
que é incerto e impermanente
e diferente em cada volta,
mas cheguei à hora certa,
graças a um azevinho
que – ainda era outono na serra -
me deixou a porta aberta.

*

Inês Pupo
(Natal 2013)

Se te deixares em pausa por momentos
por dias
ou por meses
qual a causa
e te acordares a pulso
e te encontrares
talvez ou até sim
te valha a pena

Se fores por mais alguém maré vazia
e te contares
o tempo
de uma história
e não arderes em pressa
da viagem
talvez ou até sim
amanhã voltes

*

Inês Pupo

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